domingo, 1 de julho de 2012

Sou uma parte daquilo II

 
Esse bairro é muito particular, é como o Bairro Alto de Lisboa, melhor reformado e pior habitado. Esse Bairro é onde tudo começou, onde nasceu Valencia em 138 ac. Isso era um tipo de ilha, rodeadas pelo Rio Turia. 
No final do século XIV dc, Valencia está protegida pelas duas portas da cidade, as Torres de Quart e as Torres de Serrano, que ao redor de uma circular muralha foi se desenvolvendo o que conhecemos hoje como o bairro Carmen, o bairro “underground” de Valencia.

Bom, voltando ao meu pseudo-purgatório, meu lugar de trabalho.

Tenho como vizinhos comerciantes, um fastfood turco, um fastfood árabe, um quiosque de jornais e revistas, uma loja de eletricidade, logo em frente um, dois, quatro, cinco, seis bares, cada um para um tipo especial de estigma pessoal.
Com todos os bares tenho boa relação cliente-vizinhos mas tem um em especial que tenho que comentar aqui pois é um caso a parte. É o restaurante-bar Popeye.
O Dono, Fritz, é um alemão anarquista que veio parar em Valencia há uns quarenta anos atrás como exilado político de Berlim. O cara, hoje um senhor de aproximadamente 65 anos, deve ter sido barra pesada em sua época, não que não continue sendo hoje, justamente por isso.
O bar dele tem o seu encanto, por dentro se parece um barco podre, com um aquário grande, com uma água tão suja quanto a do Rio Tiête. Os peixes que ali sobrevivem, seguramente já sofreram mutações importantes para a pesquisa biogenética atual, pois sempre vejo ali novos peixinhos. Naquela água asquerosa, naquele bar estranho.
O ambiente é acolhedor pelo descaso de todos. Na verdade a clientela que frequenta o Popeye, incluso os próprios funcionários parecem memorabílias do local.
Eu costumava frequentar muito esse bar, havia recém chegado a Valencia depois de cinco anos vivendo na lusitana cidade de Lisboa. O pessoal alí parecia sempre muito receptivo e me adotaram rapidamente. Fiz amigos de verdade ali naquele antro.
O problema é que a partir do momento em que entras no Popeye tens que ter em mente que não vais entrar em nenhum outro estabelecimento naquele dia, vais ficar ali e ponto, tamanho o cheiro a frituras, tabaco e álcool que impregna em nossas roupas, em nossas almas, quando optas em ir ao Popeye. 
Tens que ir ao Popeye com o pensamento que a noite será larga e bizarra!
Na verdade ainda creio ser Popeye meu bar favorito aqui no bairro, mas já não vou lá com muita frequência.
No bar trabalhava meu ex-companheiro de casa Pepe, natural de Buenos Aires e Design de Jóias. Nas mesas trabalhava Margarida, natural de Montevideo e professora de Yoga; Flôr, uma valenciana multimilionária mas vivia estilo São Francisco de Assis.
Na cozinha trabalhava Katia, natural de Moscow, um personagem essa mulher. Durante o dia tem uma loja de fetiches, tudo quanto é tipo de acessórios e roupas “exóticas” para gente exótica, dragqueens e companhia. Durante a noite, estava lá ela, no John Silver a preparar pratos de salsicha alemã e a esquentar a barriga no fogão.
Mas o pessoal da cozinha não termina por aqui, havia um personagem muito estranho, na verdade creio ser o mais bizarro de todos e até hoje me pergunto o que fez o Fritz (proprietário), ter coragem de contratar aquela criatura. Enfim, a menina, se é que se pode uma palavra doce como ”menina” se aplicar áquela pessoa. Anika (de Anarquista certeza!) é um ser natural de Lima - Perú. 
Definiria Anika como uma mescla infeliz de gótica, punk, mendiga, “freak” total, animal selvagem, mãe de família e infelizmente auxiliar de cozinha.
A tipa tem dois filhos, que estão sempre com ela em qualquer lugar e a qualquer hora (quando digo “qualquer lugar” e a “qualquer hora” quero dizer o sentido mais extremo dessas palavras), inclusive quando ela vai trabalhar. 
As crianças naquele ambiente, de mesa em mesa, entre a fumaça de cigarro e maconha, entre a fritura e o álcool, como uns vira-latinhas peruanos. 
Anika devia cheirar até na tábua de cortar carne. Alterado era seu estado normal, creio que nunca ví ela sequer piscar um olho.
E as crianças ali a brincar com cinzeiros e a fazer castelos com latas de cervejas vazias.
Apesar de tudo isso, ainda assim o ambiente era genial para quem não tinha nada a perder ou para quem já havia perdido tudo.
Não esquecendo de comentar que Fritz tem como amuleto de “sorte” do bar uma perna de pau, que diz ele ser da época da Guerra Civil Espanhola. 
Pobre perneta onde foi parar! 
O Popeye sempre me surpreendeu, para bem ou para mal, mas sempre surpreendendo. Uma das coisas que sempre me surpreendem ali é a eleição da música, nunca escutei  alí algo que não me agradasse. Rock alternativo, Rock clássico, Rock alemão, Rock Espanhol, underground, psicodélico, músicas do mundo, sempre beirando o rock, o freak e o punk, nunca nada mais leve!
Semana passada me contaram que Hans, um alemão beirando os 30 anos, sobrinho de Fritz, havia morto de câncer de pulmão. Hans trabalhava ali também, mas como um substituto, na època em que Fritz foi preso durante seis meses por falta de pagamento de impostos. O rapaz realmente era  boa pessoa e também uma máquina de fazer fumaça, comprava todos os dias aqui na tabacaria duas carteiras de Camel. Pobre Rapaz.

4 comentários:

Daniel Favaro English Teacher disse...

Gostei da tua postagem! Legal prima.

Daniel Favaro English Teacher disse...

Rock n' roll com certeza! Aqui em Curitiba eu só escuto a radio Rock 93.9, infelizmente eles não tocam tanto rock quanto eu gostaria, poderiam tocar mais Green Day, Offspring... os mais radicais mesmo.

ana cláudia disse...

mais histórias destas por favor ;)

Angelica disse...

Que bom que vcs gostaram!! Em breve mais absurdos!!