sábado, 30 de junho de 2012

Sou uma parte daquilo I

 
Na tabacaria:
  • 7.50
  • Gracias!
  • a Ti!
  • 3.20
  • Gracias
  • a ti
  • 4,10
  • gracias
  • a ti
  • 3,95
  • gracias
  • a ti
  • 4.65
  • gracias
  • a ti
Confesso que trabalhando na Espanha durante 4 anos em uma tabacaria, meu vocabulário minguou cerca de quarenta porcento. Meu diálogo de trabalho se limitava em Gracias! Perdona? A ti! Próximo!! Buenos Dias! Buenas Noches! Buenas Tardes! Adiós! E os números claro! Preços selos: para Espanha, para Europa, para Américas. Preços de cigarros: cigarros de enrolar, de mascar, de cheirar. Papéis de enrolar: finos, grossos, grandes, curtos, estreitos, de arroz, transparente, naturais, de canhamo. Filtros: finos, filtros grandes, em caixinha, em saquinho, ecológicos, de papel. Recargas: de cartão de ônibus, de metrô, recarga de celulares, 5, 10, 20 euros. Charutos: cubanos, espanholes, canários, finos, com filtros, caros, baratos e horrivelmente baratos.

Os clientes se dividem em vários gêneros, cores e nacionalidades, grande parte deles são criaturas mil-euristas, solitárias com ou sem cachorro, gays com cachorro ou com namorados. Trabalhadores da noite: garçons, cocainômanos, prostitutas, músicos de rua. Sul-americanos explorados ou não, Africanos vendedores de bugigangas, Paquistaneses vendedores de flores. Frustrados mal educados, adolescentes iniciantes no vício, noturnos perdidos, estudantes universitários, em grande maioria italianos que não falam uma palavra de castelhano, “novos” mendigos, “velhos junkies”, bêbados crônicos, “novo pobres”, espanholes encarando a pior crise do país desde a Guerra Civil, espanhola em pleno 2012. 
Também passam por aqui muitos turistas de países nórdicos, se nota rapidamente porque são ricos, loiros, de olhos azuis, exageradamente simpáticos. Os ingleses já não tão simpáticos mas sim ricos e educados. Italianos, mais chatos impossível, creem que o mundo inteirinho fala italiano, e é óbvio, a minoria espanhola valenciana: ricos, profissionais de saúde, advogados e outros esnobes, ricos ou pobres, que passam por lá para ofender ou tratar mal alguém, principalmente se quem esta atendendo é uma estrangeira como eu, ou melhor, uma sul americana que tem a sorte de ter um emprego fixo nesta fase crítica pela qual a economia espanhola atravessa, atualmente com cinco milhões de desempregados!

Este é o cenário atual de onde trabalho, na província mais afetada pela crise atual, a Comunidade Valenciana, onde a corrupção, gastos públicos exorbitantes e inexplicáveis, são completamente esquecidos nos mês de março, quando começam as Fallas; festa tradicional Valenciana, onde os valencianos passam quase o mês todo esbanjando o que não têm. Homens, crianças e mulheres vestidas de medieval com vestidos que valem entre mil e quarenta mil euros, fogos de artifícios pela manhã, tarde e noite. Cada bairro tem a sua Falla, que consiste em uma escultura de no mínimo cinco metros de altura, construída por artistas plásticos. Os bairros enfeitados de luzes, sim, luzes! Quando digo luzes não falo de algumas lâmpadas enfeitando postes, quando digo luzes são cerca de quarenta mil luzes acesas durante o mês todo. 
Ai Valencia Minha!!! continua...